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Gauchos em Santa Catarina e Paraná, de João Folador O Rio Grande do Sul, além de grande, é dois. Isto porque no Brasil existe outro Estado gaúcho fora do Rio Grande, cujos limites partem de Santa Catarina, ao Sul, até o Pará e Amazonas no Norte; a Leste é o Cerrado Central e ao Oeste são os espanhóis confinantes do Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. É uma vasta região desbravada, colonizada, e povoada por emigrantes riograndenses , desde há um século. O Estado maior é o de fora, o derivado. Tem mais área, mais poder econômico e aproximadamente a mesma população do original. Os gaúchos e seus descendentes do Oeste de Santa Catarina, do Sudoeste do Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Pará, Amazonas e algumas partes do Cerrado Central ocupam uma área, ora continua ora descontinua, equivalente, no mínimo, a duas vezes o Rio Grande do Sul; produzem mais grãos- soja, milho e feijão; são proprietários de um rebanho bovino três a quatro vezes maior. Hoje somente o Estado da Rondônia, povoado por gaúchos ou seus descendentes , tem a mesma quantidade de cabeças de gado que o Rio Grande do Sul. A migração de gaúchos começou no final do século XIX, com destino ao Oeste de Santa Catarina. Tomou vulto a partir de 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial, estendendo-se ao Sudoeste do Paraná. Era composta de agricultores, denominados “colonos”, e de pequenos empresários todos de origem italiana, alemã e polonesa. Com eles vinham também elementos lusos, negros e caboclos, inclusive alguns estancieiros dos pampas. Desbravaram as terras onde se implantaram; montaram serrarias, produziram alimentos para os grandes centros do Brasil; formaram vilas, cidades e grandes empresas ligadas ao agronegócio. Prosperaram, enriqueceram e depois se expandiram mais para o Norte, onde transplantaram o mesmo modelo de trabalho e empreendedorismo. Sua passagem, com milhares de quilômetros de extensão e centenas de largura, é marcada pelo trabalho incansável, sacrifício, arrojo e visão, de futuro, em marcha pacifica e construtiva, caso único na história do mundo, ainda por ser estudado. Não satisfeitos em desbravar o Brasil, os gaúchos romperam as fronteiras nacionais e se infiltraram nas repúblicas vizinhas do Paraguai e Bolívia. A migração de riograndenses rumo ao Norte desenvolveu-se em duas fases: a moderna representada pelos colonizadores, ou pioneiros, como até aqui explicado, e a antiga representada pelos tropeiros que teve início a partir da fundação da vila de Rio Grande, hoje cidade do mesmo nome, e que se consolidou, nos primeiros anos de 1800, com a conquista da região missioneira pelos aguerridos soldados de Borges do Canto entre muitos outros heróis da mesma época e anos anteriores. Os tropeiros, conduzindo mulas, boiadas e charque aos mercados de São Paulo, abriram caminhos desde os campos de Vacarias e de Viamão até Sorocaba, passando pelos campos do planalto central catarinense. No seu trajeto nasciam pontos de observação e vilas em cada “pousada”, onde também se implantavam os costumes dos pampas. Entre 1840 e 1850 abriu-se uma nova rota de tropeiros, a denominada “Estrada das Missões”, que partia do Noroeste do Rio Grande do Sul, rumo ao passo do Goio En, no rio Uruguai, daí até Palmas, Guarapuava, Curitiba e Castro. A fase dos tropeiros prevaleceu durante aproximadamente 200 anos, e representava o maior fator econômico e político do Sul do Brasil. Todas as grandes fortunas e lideranças dessa época tiveram como suporte as tropas, principal meio de transporte e de circulação de riqueza. Famosos políticos do Rio Grande do Sul eram tropeiros, destacando-se entre eles o senador Pinheiro Machado, o mais influente na República, assassinado em 1915. Com a era do caminhão, a partir especialmente do fim da Segunda Guerra Mundial, a importância do troperismo vai aos poucos se esvaindo. As tropas de mulas são substituídas pelos caminhões; as picadas, pelas estradas de rodagem. Foi quando começou a se avolumar a chegada de colonos gaúchos no Oeste de Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Nessa região toda produção agrícola, de suínos e de madeira estava em suas mãos, e seus caminhões transportavam todo esse produto para São Paulo e Rio de Janeiro especialmente. Os caminhoneiros eram quase todos de origem italiana ou alemã, mas carregavam consigo as tradições gaúchas originadas dos pampas lusos, e as disseminaram por onde passavam. É um fenômeno realmente extraordinário que mostra a força do espírito e dos costumes gauchescos, impondo-se à grandeza da cultura germânica ou italiana. O auge da migração gaúcha ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, quando saíram do Rio Grande do Sul 375.000 e 1.000.000 de pessoas, respectivamente. Esses migrantes abandonavam a terra natal com suas famílias seus bens, seu capital e seus instrumentos de trabalho para logo sobreviverem e prosperarem nas novas terras que ocupavam. Trata-se de uma migração diferente da nordestina. O nordestino, que deixa sua terra árida para nova vida na cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, é apenas um retirante, que só possui a roupa do corpo. O migrante gaúcho, ao contrario, é um conquistador, apto a impor seu domínio nas novas terras que escolhe para viver. Foi assim com o tropeiro, é assim até hoje com o colono, granjeiro ou agropecuarista , que se encontram em quase todo o Brasil, do Chuí ao Oiapoque. É extremamente relevante conhecer este fenômeno da história e da sociologia do Brasil. Pode-se desta maneira afirmar com toda certeza: quem não conhece a história do Rio Grande e dos gaúchos não conhece a história do Brasil, da mesma forma que ninguém compreende a história do Brasil sem conhecer a história dos antigos bandeirantes paulistas. Leia mais: livro Gaúchos em Santa Catarina e Paraná, de João David Folador, editado pelo Instituto Memória, de Curitiba - PR.
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