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Sonetos do Isolamento

Autor: Nelson Cerqueira
Páginas: 224 pgs.
Ano da Publicação: 2021
Editora: Instituto Memória
De: R$ 85,00 - por: R$ 70,00

SINOPSE

Apresentação

 

Tempo do isolamento, urgência da poesia

 

O tempo do isolamento impôs-se de forma quase absoluta no mundo contemporâneo. O jogo de espelho solidão/multidão, como percebeu Charles Baudelaire, desde meados do século 19,  tem sido o binômio que inquieta e desafia o bem-estar coletivo, na cultura do mundo moderno.

De fato, vivemos cada vez mais isolados em ilhas existenciais, antes por razão de segurança e proteção em face do turbilhão cotidiano, dissolvidos nas multidões heterogêneas, em que o indivíduo não consegue se reconhecer. Hoje, instados por uma ameaça mortal, somos tangidos das ruas e do convívio interpessoal por uma pandemia global: vírus, mas também ideias, ideologias, contradições, violências. Uma imensa crise do ser humano consigo mesmo e com o seu oikos de existência.

Tempos difíceis, vazios, estilhaçados. O isolamento torna-se um mantra da sobrevivência. Necessidade de resistir. Razão para refletir e engendrar, para além dos significados literais, uma visão transcendente de tudo, pelos afetos e pela figuração imagética.  Poesia.

Isolamento quer dizer, mais do que nunca, solidão. Uma solidão visceral, sensação mútua de disjunção entre o sujeito e o coletivo ao seu redor. Cada vez mais somos algarismos para o controle aleatório de um sistema de inteligência artificial. E somos algoritmos nas telas dos computadores, o corpo reduzido a um rosto enquadrado, em pontos de luz nas telas: seres de pixels, avatares eletrônicos.

Todavia, não podemos perder a esperança:  somos gente, homo sapiens, seres de pensamento e emoção. Como manter, em circunstâncias tão adversas e até mesmo apocalípticas, uma noção positiva de nossa combalida condição humana? 

A poesia será a melhor resposta?

Certamente. Como ensina Octavio Paz, a poesia é o antídoto contra os venenos de uma sociedade que transforma tudo em objeto de lucro, reificando até mesmo a alma humana. O que resta de mais genuíno em nós é a poesia, porque constitui uma consciência transcendente sobre a relação do ser com o semelhante no seio do oikos, em suas relações mais intrínsecas e incomensuráveis. Num mundo tão adverso, só através da poesia podemos nos encontrar, em consciência e afeto, naquele exato ponto em que razão e emoção se tocam, comungam, e alimentam a nossa condição o ser e estar no mundo.

Nelson Cerqueira é um intelectual, educador, narrador e poeta. E ele sabe, por experiência própria, que a poesia jamais silencia nem nos abandona. A poesia resiste, pois a vida não lhe dá trégua, em seu movimento contínuo de contradições e desafios.  Octavio Paz afirma que os poetas são guardiães de uma outra voz, para além de todos os discursos que fundam o mundo tal como ele se nos apresenta. Essa outra voz instaura um princípio discursivo transcendente, e dá visibilidade simbólica a um mundo outro, fundado na linguagem. Nesse mundo a poesia tem lugar e vez como uma forma de conhecimento e de aproximação entre todos, superando o isolamento e a disjunção afetiva.

Essa voz pertence aos poetas. E essa voz – ânima da poesia - mantém a esperança de que recuperemos o sentido comunitário da condição humana. A poesia constitui, portanto, um lugar de vigília no seio da cultura, um bem da civilização, uma salvaguarda para o presente e o futuro. Um antídoto contra a desumanização.

Os poetas estão sempre atentos para verbalizar as nossas perplexidades e impressões diante da vida, nos revelando as suas sugestões estéticas e vivenciais. Eles fazem do isolamento um lugar de fala, de onde produzem um discurso que aponta os caminhos para fora, na direção do outro, tecendo uma rede de comunicação capaz de nos reaproximar do coletivo. Seu material é a vida, a contemplação, o imaginário; seu veículo é a linguagem, as palavras, as figurações. Nesse sentido, a poesia é uma missão de vida, uma forma de manter a chama acessa, no fundo da alma humana.

Poemas do isolamento, este livro, faz parte desse movimento poético de superação que todos vivenciamos nesta agônica travessia pandêmica. O autor assume o seu lugar de poeta, e encarna aquela outra voz, e se dirige a uma plateia que possa ouvi-lo, através de sua própria voz. Eis aqui um guia de elocubrações imagéticas e sutilezas vivenciais provindas das fontes vitais, da imaginação criativa de um poeta que procura, busca, arrisca, e consegue alcançar performances líricos de grande intensidade.

Todo discurso poético exibe suas constantes expressivas, apontando o lugar de onde fala o poeta – e quais são suas palavras recorrentes. Uma palavra/imagem de força, em torno da qual orbitam todas as outras, num campo de sentidos que nos permite compreender o conceito geral do discurso poético em sua totalidade.

 Segundo Charles Baudelaire, podemos compreender a alma de um poeta se prestarmos atenção àquelas palavras que aparecem mais amiúde em seus poemas. Devemos encontrar essas palavras que são chaves de leitura e compreensão do discurso geral do autor. Todo poeta manifesta essa palavra de toque, espécie de leitmotiv que ecoa ao fundo de seus acordes, dando a feição temática e imagética do conjunto.

Em Poemas do isolamento há um esforço volitivo do eu lírico no sentido da abertura, um escape externo desse estado de espírito forçadamente recluso. A poesia se faz como forma de romper o isolamento. Cada poema é um chamado, um aceno à escuta do outro, um tecido de palavras encantatórias, para além dos sentidos mais literais de cada texto.  Em todos os cantos desse conjunto orbitam em torno da palavra amor. O eu lírico pronuncia a palavra amor 47 vezes. Amor é o mantra-signo desse concerto lírico abrangente, multifacetado, com partituras diversas, cadências diferenciadas, tonalidades distintas – e todos esses elementos movimentando-se em torno da sonoridade plástica da palavra que é o símbolo do encontro.

O amor é a medida da grandeza afetiva do discurso que rompe o isolamento em busca do encontro com o olhar do leitor e da leitora. O amor, em suas diversas significações, ora atenuadas, ora potencializadas, como ponto de equilíbrio entre razão e emoção, desejo e limite, sonho e realidade. São momentos de busca e de chamamento para a experiência mútua dos afetos, em que as subjetividades podem-se reencontrar no mesmo ponto de espera e esperança. Então o eu lírico canta: 

 

“vem comigo ouvir a voz do vento

entrever o amor antes de cair o trovão”

 

E, nesse tom, o eu poético convida e arremata no mesmo canto:

 

“vem comigo ouvir a voz do vento

vem salvar esse amor de um naufrágio

vem rápido pois agonizo sem teu sopro”

 

Nas suas diversas ocorrências, a arquipalavra amor contempla várias possibilidades semânticas, com ligeiras fugas e reiteradas voltas, novos volteios.  Talvez seja mais intensa a sua força imagética e musical no poema “CinemaScope 11”, como podemos perceber:

 

entre a rosa e seus espinhos existe

uma relação íntima de troca e amor

existe um braço nu sobre cada corte

sangue não nega ao outro os afagos

 

entre teus olhos e os meus existe

uma relação de rosas e espinhos

toda vez que me pensas rejeitar

surge difícil fechadura sem chaves

 

união intrínseca de um corpo místico

a navegar velozes mares sem caravelas

verdadeiro furacão em noites sem lua

 

para minhas mãos ou para teu corpo

um amor além de todo amor existe

esfera e síntese de rosas e espinhos

 

Esta é a obsessão volitiva do eu lírico, aqui ultra potencializada pela intensidade dos sentidos da palavra amor e suas revelações, o que está sintetizado na expressão: “um amor além de todo amor”. É o ponto máximo do afeto que, estando para além de si mesmo, supera todas as circunstâncias que podem deformá-lo ou subsumi-lo. É o amor em estado puro, em essência, fora do alcance de quaisquer adjetivos que o possam modificar, restringir ou tipificar em seu sentido total.

Toda poesia é invenção de linguagem, é fingimento consciente de estados de espírito. Aqui não é diferente. Tudo aqui é construção, efeito, habilidade, cultivo, trabalho de oficina criativa. Mas tudo também é vida, vivência e experiência; é prova de intimidade consigo mesmo e com as palavras, vontade de dizer algo novo e representar a verdade intima do sujeito. Poesia: confissão da subjetividade, invenção do intelecto; duas forças operantes na instauração do discurso lírico.

 Os poemas nos sugerem como sentir e expressar os sentidos de cada experiência, com consciência da vida e medida dos desejos; o saldo das contradições entre sonho e realidade, desejos e limites.

Os poemas de Nelson Cerqueira são percepções e sentimentos que o poeta elabora, em seu trabalho de linguagem. São recortes da vida, vivida, imaginada, desejada, possível, impossível – que ele compõe num mosaico de partituras, cujos sentidos extrapolam o senso comum e encantam as pessoas sensíveis. Nesses cantos nos reconhecemos porque assumimos a persona do eu lírico e com ele sentimos a sua musa vibrar em nossa alma.

A poesia engendra formas de resistência, e nos conduz a encontrar saídas simbólicas para além do abismo existencial que tenta nos tragar.  Cada poema é um canto, um jogo amoroso com os sentidos.  A poesia nos oferta suas iluminações, e nos deixa conscientes de nosso poder criativo, nossa capacidade de superação e de transformação. A poesia é um remédio poderoso contra o isolamento da alma, da voz interior e da consciência.

 

Aleilton Fonseca, escritor.