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ÔNUS E BÔNUS DA GUERRA AO TERROR: custo para os EUA e ganhos relativos da China em tempos de mudança no sistema-mundo moderno

Autor: Bruno Hendler
Páginas: 228 pgs.
Ano da Publicação: 2015
Editora: Instituto Memória Editora
Preço: R$ 65,00

SINOPSE

PREFACIO DE Antônio J. E. Brussi (Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília)

O livro que o leitor ora tem em mãos trata de alguns dos mais candentes temas do atual sistema interestatal, tendo sido inicialmente desenvolvido como parte de um projeto de dissertação de mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, com breve permanência do autor na Johns Hopkins University, em Baltimore, Estados Unidos. Em que pesem a motivação inicial do trabalho – o cumprimento de uma exigência escolar – e a juventude do autor, o livro apresenta algumas interpretações muito oportunas, especialmente quando se considera também que o trabalho foi desenvolvido no Brasil por um jovem pesquisador brasileiro. Essas peculiaridades – juventude do autor e o ambiente acadêmico em que a pesquisa foi desenvolvida – na verdade serviram de estimuladoras para a escolha do tema proposto assim como para a perspectiva crítica que apresenta, se não por outro motivo, pelo desapaixonado distanciamento do objeto de estudo, fato facilmente comprovado até por uma aproximação menos aprofundada do texto.

O primeiro ponto que imediatamente chama a atenção é o tema da investigação, no mínimo pouco comum no meio acadêmico brasileiro. Após bem trabalhada apresentação da teoria utilizada, fundamentada na perspectiva do sistema-mundo, uma proposta interpretativa desenvolvida por Immanuel Wallerstein e Associados a partir dos anos 1970, o trabalho passa a discorrer sobre a emergência dos Estados Unidos da America ao posto de potência hegemônica no sistema-mundo do século XX, em um arco temporal que em várias oportunidades recua até o século XIX, com o intuito de elaborar com solidez a moldura interpretativa do inquestionável movimento de declínio hegemônico dos Estados Unidos, iniciado por volta dos anos 1970. É no contexto desse “final de festa”, ou dessa “belle époque”, no dizer de Giovanni Arrighi – uma das referências fundamentais do trabalho – que surge a pergunta, ou hipótese, a ser cuidadosamente trabalhada, qual seja, a de que a Guerra ao Terror vem aprofundando as dificuldades e apressando a declínio da hegemonia dos Estados Unidos no sistema-mundo capitalista.

O fato de a Guerra ao Terror representar o eixo nucleador deste trabalho, torna oportuna a recordação de pelo menos um par de aspectos críticos que destacam a qualidade da análise, especialmente louváveis pelo alcance que o trabalho adquire frente a outras investigações de cunho mais convencional. Esses traços diferenciadores podem ser mensurados pela confrontação a alguns dos pressupostos mais difundidos dos modernos estudos da política internacional, surgidos a partir do fim da União Soviética em 1991 como, por exemplo, a ideia de mundo unipolar, ou de unipolaridade. Este termo pode ser aqui brevemente definido como o fenômeno da concentração de riqueza e poder em um determinado estado sem que haja contestação por parte de qualquer outro estado individual ou de qualquer tipo de coalizão de estados, realisticamente ambientados em um contexto de anarquia sistêmica. A esse respeito, é oportuno lembrar desde já que não se deve confundir unipolaridade com hegemonia, embora os termos sejam freqüentemente intercambiados naqueles estudos apresentando, consequentemente, significado totalmente diverso da noção de hegemonia que será encontrada neste livro e que se reveste de parte importante da sua argumentação.

A utilização de um conceito de hegemonia associado à preeminência de um estado cujo poder é inquestionável, como o enunciado acima, apresenta fundamentalmente dois conteúdos: o de domínio (macht) exercido por esse estado sobre os outros estados, em um contexto interestatal de permanente rivalidade – o real sentido de hegemonia para esses estudos – e seu conteúdo de recorrência quase inconsequente, em que se observa a repetição de emergências e quedas de poderes hegemônicos no sistema interestatal que, não obstante, permanece anárquico, marcado pela rivalidade e pouco afetado por tais movimentos (ARRIGHI, 1996).

Por seu turno, o presente estudo apresenta outro e, pode-se antecipar, mais completo entendimento do conceito de hegemonia. Em primeiro lugar, como em Gramsci, entendendo-o não apenas como domínio, mas também como resultado de uma liderança desejada, especialmente pelos objetivos percebidos pelos outros estados como provenientes de uma liderança empenhada na busca do interesse geral. Além disso, as hegemonias não ocorrem apenas como sucessoras de outras, em um sistema que permanece fundamentalmente com as mesmas características. No caso desta investigação, seguindo a interpretação de Giovanni Arrighi, [1]

 

“... as hegemonias mundiais não “ascenderam” e “declinaram” num sistema mundial que se tenha expandido independentemente, com base numa estrutura invariável, definida desta ou daquela maneira. Ao contrário, o sistema mundial moderno se formou e se expandiu com base em recorrentes reestruturações fundamentais, lideradas e governadas por sucessivos Estados hegemônicos” (ARRIGHI, 1996:30-1 sublinhado).

 

Desse modo, além do tratamento mais abrangente da emergência da hegemonia americana, da concomitante reestruturação que ela trouxe ao sistema mundial e das conseqüências sistêmicas de seu irremediável declínio – fenômeno insistentemente rejeitado pelos defensores da unipolaridade – a abordagem apresentada na investigação ora prefaciada compartilha uma visão também pouco frequente nos estudos mais convencionais sobre a política e o sistema interestatal, visão relacionada mais precisamente com a guerra – ou as guerras – e seus efeitos para os estados nela(s) envolvidos.

A este respeito, o autor evidencia, com habilidade e consistência, que a antiga tese dos “(p)orta vozes do moderno imperialismo (que) repetem a fé dos mercantilistas de que a guerra é um instrumento que pode e deve ser utilizado para aumentar a prosperidade nacional” [2], de modo algum pode ser aplicada no caso da Guerra ao Terror. Neste caso, segundo seu julgamento, aquela relação estaria mais para a guerra como estimuladora de decadência nacional e que o principal alvo de suas preocupações, a “cruzada” (na verdade este foi o termo inicialmente utilizado pela Casa Branca e posteriormente deixado de lado depois de advertida pelos aliados da OTAN) desencadeada pelos Estados Unidos a partir do 11 de setembro de 2001 contra a Al Qaeda, o Talibã, etc., na realidade aumentou as dificuldades econômicas e políticas do hegemon em declínio ao mesmo tempo em que vem criando oportunidades de ascensão para novos pretendentes, que Bruno Hendler, com farta documentação, aponta a China como sendo a aspirante mais promissora.

Há outros temas instigantes a cativar o interesse do leitor que, de acordo com a boa cartilha, devem ser preservados para a devida identificação e avaliação. Exercício que, com certeza, muito beneficiará os que completarem a leitura deste excelente trabalho de investigação.

 


[1]- ARRIGHI, G. (1996). O Longo Século XX, São Paulo, Unesp - Editora Contraponto.

[2] - LANE, Frederick C. “National Wealth and Protection Costs”, in: Frederick C. Lane (1979). Profits from Power, Albany, State University of New York Press.