Instituto Memória - Centro de Estudos da Contemporaneidade Instituto Memória - 15 anos Instituto Memória - Televendas - 41.3016 9042
 

PESQUISA
Pesquisa por Título ou Autor/Colaborador:

Texto da Pesquisa:


clique na capa para ampliar

ESGOTADO: A Polenta como forma de expressão da cultura italiana

Autor: Giovanna Piffar
Páginas: 150 pgs.
Ano da Publicação: 2011
Editora: Instituto Memória
Preço: R$ 35,00

SINOPSE

O presente trabalho “A Polenta como forma de expressão da cultura popular italiana”,foi aprovado como monografia que permitiu a obtenção do grau de Licenciatura/Bacharelado do curso de graduação em História pela Universidade Federal do Paraná, em 2006. Começou a ser pensado e construído a partir do momento em que fazendo a matrícula para a disciplina de Tópicos Especiais de História e Cultura da Alimentação, ministrada pelo professor Carlos Roberto Antunes dos Santos, fiquei curiosa, como aluna do curso de História, em saber que havia uma disciplina que abordava outras áreas do conhecimento científico. A perspectiva de trabalhar com aspectos mais qualitativos deu abertura para iniciar a minha pesquisa. Devo considerar também o meu fascínio pelo tema que envolve aspectos pessoais, pois que sou descendente de italianos e procuro resgatar as minhas raízes.

Partindo do pressuposto que alimento e comida são categorias históricas e que um alimento, ao se transformar em comida, revela a identidade étnica de um grupo, a minha pesquisa foi conduzida. Assim, os hábitos alimentares e o gosto alimentar são condicionados pela sociedade em que vivemos, estão enraizados na identidade social da espécie humana, são transmitidos culturalmente. O alimento constitui-se em um dos elementos fixadores da identidade étnica, uma categoria histórica. A comida assume seu valor simbólico diante dos hábitos alimentares, que fomentam identidades.

A partir desta perspectiva, escolheu-se como delimitação espacial deste trabalho o bairro italiano de Santa Felicidade localizado na cidade de Curitiba, antiga colônia italiana apresenta, ainda hoje, em sua maior parte, uma população homogênea constituída por descendentes de imigrantes italianos provenientes do Norte da Itália, em especial da região do Vêneto. O período de análise compreende ao anos de 1940 a 2006.

Para o imigrante italiano a família, a fé, o trabalho e a alimentação eram os princípios fundamentais aceitos, mantidos pelo grupo e transmitidos de uma geração para outra. Através dessa análise, optou-se investigar a comida italiana, destacando-se, como objeto desta pesquisa, um prato da gastronomia italiana do Bairro de Santa Felicidade – a polenta – presente ainda hoje nos ambientes familiares, em restaurantes que servem a típica comida do imigrante e nas festas típicas do Bairro de Santa Felicidade, que são as Festas da Uva e do Frango, Polenta e Vinho.

A presente obra busca alcançar como objetivo principal deste estudo verificar de que maneira os descendentes de italianos vênetos do bairro de Santa Felicidade se apropriam de um elemento gastronômico como forma de expressão da cultura popular italiana.

Para a sua execução buscou-se, inicialmente, elaborar um referencial teórico sobre a História da Alimentação com o intuito de: discutir como algumas culturas imprimem caráter simbólico para determinados alimentos; compreender como a memória coletiva manifesta a tradição culinária de um determinado grupo étnico; considerar o processo de imigração italiana para a província do Paraná, notadamente no contexto da grande imigração, final do século XIX; e entender a reconstrução da identidade étnica dos descendentes de italianos vênetos manifestada através da valorização de sua culinária étnica.

As obras do Prof° Carlos Roberto Antunes dos Santos serviram de alicerce para a construção desta pesquisa. Destacando o seu trabalho “História da Alimentação no Paraná”, o autor aponta que os padrões de mudança dos hábitos alimentares têm referência na própria dinâmica imposta pela sociedade, com ritmos diferenciados em função do grau de aceleração na base do desenvolvimento. Em seu artigo Por uma história da Alimentação, observa-se a relevância da interdisciplinaridade da micro-história e o florescer da memória gustativa. Na revista História: Questões e Debates, n. 42, de 2005, o autor apresenta um dossiê sobre a História da Alimentação, expondo diversos estudos realizados sobre a História da Alimentação em várias universidades brasileiras, e apresentando, ainda, trabalhos que estão em andamento, demonstrando a importância da História da Alimentação para o estudo da História.

Os trabalhos da Profª Altiva Pilatti Balhana em muito contribuíram para a realização deste trabalho, destacando-se, de forma especial, a obra Santa Felicidade: um processo de assimilação. A autora identifica a polenta como alimento principal no cotidiano do imigrante italiano recém chegado ao Paraná e ainda presente nas refeições diárias de seus descendentes.

Utilizamos como metodologia a História Oral através de entrevistas gravadas, conforme Anexo I. Foram realizadas 15 entrevistas gravadas, abertas, sendo os entrevistados descendentes de italianos, homens e mulheres residentes no Bairro de Santa Felicidade entre donas de casa, aposentados, contador, professor, agricultor, profissionais autônomos, clérigos, organizadores de festas e proprietários de restaurantes, inseridos na faixa etária entre 30-75 anos, representando a segunda e terceira geração de descendentes italianos.  Como observador participante, acompanhei eventos, que são as festas típicas realizadas no Bosque São Cristovão no Bairro de Santa Felicidade, observando todo o ritual dos voluntários no preparo da polenta, quando foram realizadas entrevistas gravadas com os organizadores da festa, abordando o preparo da polenta.

Foram usadas fontes de imprensa apoiadas teoricamente na História da Alimentação. Na pesquisa histórica realizou-se consulta na historiografia paranaense, bem como em outras bibliografias que permitiram contextualizar a identidade italiana.

Para facilitar a apresentação e discussão do tema em questão, o trabalho foi dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo trato do referencial teórico acerca da História da Alimentação, evidenciando o seu caráter simbólico e de construção de identidades. Refletindo a importância da comida e dos alimentos enquanto categorias históricas, carregadas de significados simbólicos, indo além dos seus nutrientes. Nesse sentido, analiso como algumas culturas imprimiram caráter simbólico para o alimento, transformando-o em objeto ritual.

No segundo capítulo parto do conceito de memória coletiva proposto por Maurice Halbwachs, acentuando como um alimento pode se tornar símbolo de identidade de um determinado grupo. É através dos depoimentos colhidos dos descendentes de italianos de Santa Felicidade que procurei resgatar a sua história, tendo como objeto de estudo a polenta, por entender que a comida é o alimento valorizado por uma cultura e por uma sociedade. Suscitar a memória dos descendentes de italianos é resgatar as suas lembranças através da história oral, reconstruindo o passado histórico diante do presente.

No terceiro capítulo descrevo o processo da imigração italiana no Paraná a partir do final do século XIX, colocando a situação e os motivos que levaram estes imigrantes italianos a vir para o Brasil. Contextualizo o cenário paranaense partindo do projeto de formação de campesinato, analisando a formação da Colônia de Santa Felicidade e sua transformação em bairro turístico, tendo na gastronomia seu elemento principal. Privilegiando a polenta, que foi o alimento básico dos imigrantes italianos vênetos tanto na Itália, em tempos de privação, como quando chegados ao Paraná, fazendo parte do cotidiano de Santa Felicidade como um prato próprio das classes rurais italianas.

No quarto capítulo abordo a questão da reconstrução da identidade social dos descendentes de italianos de Santa Felicidade, utilizando-me do conceito de identidade contrastiva de Roberto Cardoso de Oliveira, que a coloca como primordial para a afirmação de um determinado grupo em relação a outros grupos. A reconstrução da identidade é constantemente reafirmada pelos descendentes italianos através de seus rituais locais, que são as festas típicas do bairro - como a Festa da Uva e a Festa do Frango, Polenta e Vinho -, assim como através de seus restaurantes típicos italianos, que transformam o alimento do passado em símbolo de italianidade, enfocando-se, aqui, a polenta, que era identificada como comida de carestia, saindo do privado e invadindo o público.